FSCHAMBEL - UMA PÁGINA PESSOAL

Sábado, 31 Maio, 2008

A jihad electrónica - 2.ª Parte

A tradição da jihad e a inovação da internet

A al-Qaeda e os salafitas sunitas são herdeiros de uma longa tradição jihadista. Ao longo da história muçulmana surgiram periodicamente movimentos que procuraram transformar tanto a natureza da fé islâmica como a vida social e política dos seus aderentes. Estas mudanças forjadas ao longo da história do Islão foram muitas vezes determinadas pelo conceito de jihad[1].

No pensamento ocidental, profundamente influenciado pelas Cruzadas cristãs medievais – com as suas ideias próprias de “guerra santa” , a jihad foi sempre retratada como uma guerra islâmica contra os inimigos da fé islâmica. Contudo, o belicismo não é a essência da jihad.

A jihad maior ou pessoal (jihâd-i-akbar), como explicou o profeta Maomé, é em primeiro lugar uma procura interior: envolve o esforço de cada muçulmano para se tornar num ser humano melhor. Ao fazê-lo, o crente é conduzido a uma vida virtuosa, ajudando a sua comunidade. Mas o Islão também sanciona a rebelião contra um governante injusto, seja ele muçulmano ou não, e a jihad pode tornar-se num meio de mobilizar essa luta política e social. Isto é a jihad menor ou marcial (jihâd-i-asghar)[2].

Os movimentos globais da jihad de hoje, desde os talibans, no Afeganistão, à al-Qaeda mundial e ao Partido da Libertação Islâmica (Hizb ut-Tahrir al-Islami), na Ásia Central, ignoram a jihad maior, defendida por Maomé, e adoptam a jihad menor como filosofia política e social completa. Todavia, em parte nenhuma dos textos ou da tradição muçulmana, a jihad sanciona a morte de homens, mulheres e crianças inocentes não muçulmanos – nem sequer muçulmanos –, com base na etnia, na seita ou na fé. É essa a perversão da jihad, como justificação para matar inocentes, que em parte define o novo fundamentalismo radical dos movimentos islâmicos mais extremistas de hoje.

Antes de 11 de Setembro de 2001, esta nova fase da longa história do fundamentalismo islâmico passara quase despercebida no mundo ocidental. Mas os acontecimentos sem precedentes daquele dia em Nova Iorque e em Washington mudaram o mundo para sempre.

A globalização – ou mundialização como alguns preferem –, ao traduzir a crescente interligação e interdependência entre os países, em resultado da liberalização dos fluxos internacionais de comércio, de capitais, de tecnologias e de informação e da mobilidade acrescida das pessoas, permitiu também, a par da evolução da tecnologia destrutiva, o aumento da actuação transfronteiriça e do grau de violência dos grupos terroristas.

A internet tornou-se igualmente um instrumento poderoso do processo de globalização e causou um efeito revolucionário na maneira como o mundo comunicava, contraindo o espaço e o tempo e enfraquecendo o poder dos Estados em matérias de política externa e de segurança internacional. Efectivamente – como sustenta Maria Regina Mongiardim –, com a Internet e as novas tecnologias de comunicação, os governos perderam não apenas o monopólio do controlo da informação, como perderam também a capacidade de influenciar decisivamente os mercados globais, de conter as forças transnacionais ou de responder, de forma isolada, às novas ameaças (aquecimento global, delapidação dos recursos naturais, pandemias, crime organizado, terrorismo internacional, etc.)[3].

Deste modo, os terroristas descobriram que a internet podia proporcionar novas oportunidades e multiplicar os benefícios decorrentes das suas actividades. Ao contrário dos Estados, o mundo virtual não impunha fronteiras, o que o tornava muito mais atraente para as práticas terroristas. Munidos de computadores portáteis e escondidos em locais secretos e em anónimos cibercafés de subúrbios, os jovens jihadistas que sabem usar a internet tiveram o cuidado de replicar as instalações para o treino de comunicações, planeamento e doutrinação que perderam no Afeganistão e noutros campos de batalha, em novos e incontáveis websites e salas de conversação, nos quais era possível incitar ao recrutamento de novos terroristas, à constituição de novas células e à discussão estratégica e táctica de atentados.

De facto, um atentado que não passe na Internet, na prática, não existe, pois o que interessa é a sua exploração no ciberespaço. Cada um dos websites dispõe de vários links que permitem fazer o download de diferentes extractos da trágica cena, com maior ou menor duração. O acto é, em si mesmo, rodeado de um cenário, de gestos e de materiais com uma carga de simbolismo muito elevada, o que garante um efeito máximo no incitamento à jihad e na adesão à sua participação[4]. A principal ilação a tirar é que a al-Qaeda utiliza a tecnologia do século XXI para perseguir objectivos de uma prática marcial que remonta aos séculos medievais de expansão do Islão.

Outras referências:

A jihad electrónica – 1.ª Parte (ver aqui).

A jihad electrónica – 3.ª Parte (a publicar).

A jihad electrónica – 4.ª Parte (a publicar).


[1] Cf. RASHID, Ahmed, Jihad, a ascensão do islão militante na Ásia Central, Terramar, Lisboa, 2003, p. 15.

[2] Cf. COSTA, Helder Santos, O Martírio no Islão, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, Lisboa, 2003, pp. 47-48.

[3] MONGIARDIM, Maria Regina, Diplomacia, Almedina, Coimbra, 2007, p. 408.

[4] Cf. LOUREIRO DOS SANTOS, General, O Império Debaixo de Fogo, Ofensiva Contra a Ordem Internacional Unipolar, Reflexões sobre Estratégia V, Publicações Europa-América, Mem Martins, 2006, pp. 57-59.

Domingo, 20 Abril, 2008

A jihad electrónica - 1.ª Parte

Introdução

Longe vão os tempos da guerra, no Afeganistão, contra o invasor soviético e do impulso que a mesma deu à ideia de jihad. Durante este longo e sangrento conflito, chegaram milhares de combatentes islamitas de todo o mundo muçulmano, especialmente de países árabes como a Arábia Saudita, para ajudarem a causa afegã. Foi assim que a jihad, ou guerra santa, contra a União Soviética se transformou na grande causa do movimento islamita radical sunita, contribuindo para a sua mobilização geral, para a sua vitória militar e para a sua afirmação política.

Depois surgiu o espectro do terror local, com a repressão exercida pelo regime taliban, e do terror global, com os atentados perpetrados pela al-Qaeda. Atacados no coração do seu próprio território, os E. U. A. não puderam continuar a ignorar esta organização terrorista e a situação no Afeganistão. Perante a já esperada recusa dos talibans em entregar Osama bin Laden, os E. U. A. realizaram uma poderosa ofensiva diplomática para assegurar os apoios necessários à longa luta contra o terrorismo anunciada por George W. Bush, de que a intervenção militar no Afeganistão seria apenas o primeiro capítulo.

Segundo um artigo referenciado pela Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), com a expulsão dos talibans do poder pela poderosa máquina de guerra aliada, muitos terroristas da al-Qaeda perderam as suas bases de apoio e tiveram de fugir. Foram para um território mais amplo e sem lei, pouco vigiado e cheio de “armas”, que lhes permitiu continuar a disseminar a sua doutrina e a recrutar novos jihadistas: a internet. A diferença entre esse novo território e as montanhas afegãs é que as AK-47, as granadas e outros engenhos explosivos foram substituídos por correios electrónicos, quadros de mensagens, salas de conversação, fotos e vídeos digitais[1].

Um caso paradigmático destas novas tácticas terroristas no ciberespaço foi o do jovem britânico, de origem marroquina, Younis Tsouli, também conhecido por “Irhabi 007”. Tirando uma certa dose de humor negro, inerente ao famoso agente 007, aquele “irhabi” (que, em árabe, significa terrorista) conseguiu introduzir, nos computadores de diversas universidades americanas, imenso material de propaganda, como vídeos e mensagens, de Abu Musab al-Zarqawi, o líder da al-Qaeda no Iraque. A detenção de Tsouli ocorreu em 2005 e permitiu às forças de segurança e aos serviços de informações britânicos compreender melhor os meandros cibernéticos da al-Qaeda[2].

Sem nunca terem pegado numa arma ou sentido a violência dos campos de batalha, os novos jihadistas começaram a usar a internet para revolucionar as estratégias de comunicação, de propaganda e de recrutamento das redes terroristas.

Outras referências:

A jihad electrónica – 2.ª Parte (ver aqui).

A jihad electrónica – 3.ª Parte (a publicar).

A jihad electrónica – 4.ª Parte (a publicar).



[1] Cf. Internet converte-se em arsenal e campo de batalha dos terroristas, artigo de Mariana Della Barba, in “O Estado de S. Paulo”, publicado em 16/09/2007, e referenciado pela Agência Brasileira de Inteligência, www.abin.gov.br/modules/articles/article.php?id=1008

[2] Cf. KATZ, Rita e KERN, Michael, Terrorist 007, Exposed, in “The Washington Post”, March 26, 2006, p. B01, www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2006/03/25/AR2006032500020.html

Sábado, 1 Março, 2008

Kalashnikov: a arma de eleição

Anteontem quis começar a escrever uma entrada para o blog sobre o grupo terrorista Setembro Negro e tirei da estante o livro Munique, a Vingança, de George Jonas[1]. No entanto, detive-me logo na página 1, que começa assim:

A kalashnikov tem um aspecto sólido e achatado quando comparada com as linhas delgadas e elegantes da maior parte das modernas armas automáticas de infantaria. É oficialmente designada por AK 47 e consta que esta espingarda de assalto – pelo menos de acordo com a lenda que cresceu à sua volta quando se tornou na arma mais popular do terror internacional – foi inventada por um camponês siberiano. É simples e resistente. A arma tem 86,9 cm de comprimento e é feita de madeira rija – a coronha e o punho –, interrompida por duas estruturas de metal cinzento e baço. A secção central de metal inclui a culatra e o mecanismo do gatilho, com o carregador a projectar-se para baixo e para a frente numa curva suave. Leva 30 cartuchos de 7,62 mm com balas de chumbo curtas, com um núcleo de aço. Quando está regulada para fogo automático, a kalashnikov pode cuspir cem balas por minuto, balas essas que saem do cano com uma velocidade de 710 m por segundo, ou seja, cerca de 2500 km por hora. […] Quando usada a curta distância pode, literalmente, cortar um homem ao meio.

Esta interessante descrição encerra, contudo, uma realidade dura e violenta. A kalashnikov continua a matar, sendo usada por muitos terroristas, guerrilheiros, gangs e mesmo por exércitos nacionais. Das zonas de combate ao submundo das grandes cidades, a AK 47 é, pois, a arma de eleição de muitos pela sua simplicidade de utilização e pelo seu efeito mortal.

AK significa “automatic kalashnikov” e foi baptizada com o nome do seu inventor russo, Mikhail Kalashnikov. 47 é o ano em que foi inventada.

Existem, actualmente, entre 75 a 100 milhões de AK 47 espalhadas pelo mundo – o que dá uma média de uma espingarda por cada 60 pessoas. A média revela também que, por ano, morrem 250 mil pessoas por ferimentos provocados pela AK 47.

Em algumas partes do mundo, uma AK 47 pode ser comprada por apenas 10 dólares americanos. Mas, na maioria dos países, a arma vende-se por entre 100 a 300 dólares americanos, dependendo do nível de hostilidades na zona. Geralmente, quanto mais intenso o conflito, mais alto é o preço. Além disso, os modelos mais sofisticados podem custar 1400 dólares americanos.

Hoje em dia, mais de 20 países produzem a AK 47, sendo a China o maior produtor de todos. A Rússia já não fabrica esta arma, embora conserve grandes reservas. Em 2006, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, recebeu o primeiro carregamento a chegar àquele país de 100 mil AK 47. Chávez tem planos para construir, no seu país, a primeira fábrica de AK 47 no continente americano.

A AK 47 chegou às zonas de conflito mais perigosas do planeta devido a muitas operações secretas da CIA, nomeadamente no Afeganistão, onde canalizou milhões de AK 47, nos anos 80, para que os guerrilheiros afegãos (os mujahedin) pudessem combater o invasor soviético. Milhares destes mujahedin ingressaram nas fileiras da al-Qaeda. Vídeos de Osama bin Laden mostraram-no a disparar uma AK 47. Por seu lado, quando Saddam Hussein foi capturado, tinha a seu lado dois exemplares desta arma.

Um exemplo da influência da AK 47 na política africana ocorreu na véspera de Natal de 1989 quando Charles Taylor invadiu Monróvia, a capital da Libéria, com uma centena de soldados irregulares armados sobretudo com esta arma. Orquestrou, com sucesso, um golpe militar e ficou no poder durante seis anos graças a um exército de homens, mulheres e crianças, todos armados com AK 47.

Cerca de 50 exércitos nacionais utilizam, actualmente, a AK 47, incluindo os da China, Egipto, Cuba, Serra Leoa, Somália, Síria, Irão e Iraque. Na guerra do Iraque, alguns soldados americanos também preferem a AK 47, visto que a poeira encrava as suas M16. O actual exército iraquiano foi, inicialmente, armado com AK 47, compradas pelos E.U.A. à Jordânia. Mas recentemente o exército americano começou a distribuir M16, porque muitas AK 47 estavam a ir parar às mãos de grupos insurgentes islamitas. Entre 2004 e 2005 mais de 350 mil espingardas AK 47 saíram da Bósnia e da Sérvia para serem utilizadas no Iraque por empresas privadas de segurança contratadas pelo Pentágono – com a aprovação da NATO e das forças de segurança europeias na Bósnia. Contudo, o Pentágono já perdeu o rasto de cerca de 110 mil dessas AK 47.

Como símbolo, a AK 47 está representada na bandeira de Moçambique e na do grupo islamita libanês Hezbollâh.

Em 2006, as ONG Oxfam, Amnistia Internacional e IANSA (Rede Internacional de Acção sobre Armas Ligeiras) apresentaram, na Conferência das Nações Unidas sobre Armas Ligeiras, um relatório comum que antecipava o papel decisivo da AK 47, vulgo kalashnikov, nas zonas de guerra para os próximos vinte anos (ler relatório aqui).



[1] JONAS, George, Munique, a Vingança, 2.ª edição, Ulisseia, Lisboa, 2006.

Sábado, 23 Fevereiro, 2008

A morte de Imad Mughniyah

Na sequência do assassínio, em 12 de Fevereiro, de Imad Mughniyah, o suposto n.º 2 do Hezbollâh, esta organização instruiu os seus operacionais nos cuidados a terem com o uso de telemóveis, de modo a evitarem ser localizados pela SIGINT[1] israelita e a não se tornarem em alvos das unidades de contra-terrorismo do Estado judaico. No entanto, devido aos constantes avanços da vigilância electrónica, o Hezbollâh terá de esforçar-se muito mais se quiser evitar a vigilância dos seus telemóveis. 

Imad Mughniyah morreu na explosão de um carro armadilhado, cerca das 23h., no bairro de Kfar Suseh, em Damasco, na Síria, tendo sido a única vítima. Um comunicado divulgado pelo Hezbollâh atribuiu a responsabilidade do atentado a Israel, no seguimento de tantos outros perpetrados contra líderes de grupos islamitas da Palestina e do Líbano. Contudo, as autoridades israelitas negaram a autoria do assassínio, mas congratularam-se com a morte de Mughniyah, “um dos terroristas mais procurados pelo F.B.I. e pela Interpol”. 

Estes dois órgãos de investigação criminal acreditam que Mughniyah planeou os ataques suicidas que ocorreram, em 1983, contra a embaixada norte-americana e o aquartelamento de soldados americanos e franceses, em Beirute, no Líbano, em que morreram mais de 350 pessoas. Foram ainda atribuídos a Mughniyah o rapto e morte, em 1984, de William Francis Buckley, director da estação da CIA em Beirute, o sequestro, em 1985, do voo 847 da TWA, de que resultou a morte a bordo de um mergulhador da marinha norte-americana, o atentado, em 1992, contra a embaixada israelita em Buenos Aires, na Argentina, em que morreram 29 pessoas, e o ataque, em 1994, contra a Associação Mutual Israelita Argentina (A.M.I.A.), também em Buenos Aires, que matou 85 pessoas. 

Imad Mughniyah nasceu, em 7 de Dezembro de 1962, em Tayr Dibba, uma aldeia pobre do sul do Líbano, mas foi forçado a trocá-la pelos bairros miseráveis do sul de Beirute quando o exército israelita começou a atacar, no Líbano, as guerrilhas palestinianas, em finais dos anos 70. A morte do irmão por militares libaneses, nos subúrbios muçulmanos de Beirute, representou um ponto de viragem na vida de Mughniyah. 

Na adolescência, juntou-se à Organização de Libertação da Palestina (O.L.P.), onde recebeu um apurado treino militar para fazer parte da Força 17, a unidade de segurança pessoal de Yasser Arafat. Como sniper desta unidade, Mughniyah foi incumbido de alvejar cristãos através da linha verde, que dividia a capital libanesa em dois sectores: o oriental (cristão) e o ocidental (muçulmano). A determinada altura, Mughniyah chegou a estudar engenharia na Universidade Americana de Beirute. 

Depois da invasão do Líbano por Israel, em 1982, e da consequente expulsão da O.L.P., Mughniyah juntou-se a uma pequena milícia shiita que viria a tornar-se, com a fusão de outros grupos similares e com o apoio do Irão, no Hezbollâh. A ascensão de Mughniyah dentro da organização levou-o a exercer o cargo de oficial superior de informações e a chefia das operações militares, tornando-se no líder de referência logo a seguir a Hassan Nasrallah. 

Em Outubro de 2001, Mughniyah surgiu no top 22 dos terroristas mais procurados pelo F.B.I. e o Departamento de Estado norte-americano chegou a oferecer 5 milhões de dólares por informações que levassem à sua captura. Possuía o passaporte n.º 432298 (Líbano).



[1] Acrónimo de Signals Intelligence: informação obtida a partir da detecção de sinais radioeléctricos.

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