A jihad electrónica - 2.ª Parte
A tradição da jihad e a inovação da internet
A al-Qaeda e os salafitas sunitas são herdeiros de uma longa tradição jihadista. Ao longo da história muçulmana surgiram periodicamente movimentos que procuraram transformar tanto a natureza da fé islâmica como a vida social e política dos seus aderentes. Estas mudanças forjadas ao longo da história do Islão foram muitas vezes determinadas pelo conceito de jihad[1].
No pensamento ocidental, profundamente influenciado pelas Cruzadas cristãs medievais – com as suas ideias próprias de “guerra santa” –, a jihad foi sempre retratada como uma guerra islâmica contra os inimigos da fé islâmica. Contudo, o belicismo não é a essência da jihad.
A jihad maior ou pessoal (jihâd-i-akbar), como explicou o profeta Maomé, é em primeiro lugar uma procura interior: envolve o esforço de cada muçulmano para se tornar num ser humano melhor. Ao fazê-lo, o crente é conduzido a uma vida virtuosa, ajudando a sua comunidade. Mas o Islão também sanciona a rebelião contra um governante injusto, seja ele muçulmano ou não, e a jihad pode tornar-se num meio de mobilizar essa luta política e social. Isto é a jihad menor ou marcial (jihâd-i-asghar)[2].
Os movimentos globais da jihad de hoje, desde os talibans, no Afeganistão, à al-Qaeda mundial e ao Partido da Libertação Islâmica (Hizb ut-Tahrir al-Islami), na Ásia Central, ignoram a jihad maior, defendida por Maomé, e adoptam a jihad menor como filosofia política e social completa. Todavia, em parte nenhuma dos textos ou da tradição muçulmana, a jihad sanciona a morte de homens, mulheres e crianças inocentes não muçulmanos – nem sequer muçulmanos –, com base na etnia, na seita ou na fé. É essa a perversão da jihad, como justificação para matar inocentes, que em parte define o novo fundamentalismo radical dos movimentos islâmicos mais extremistas de hoje.
Antes de 11 de Setembro de 2001, esta nova fase da longa história do fundamentalismo islâmico passara quase despercebida no mundo ocidental. Mas os acontecimentos sem precedentes daquele dia em Nova Iorque e em Washington mudaram o mundo para sempre.
A globalização – ou mundialização como alguns preferem –, ao traduzir a crescente interligação e interdependência entre os países, em resultado da liberalização dos fluxos internacionais de comércio, de capitais, de tecnologias e de informação e da mobilidade acrescida das pessoas, permitiu também, a par da evolução da tecnologia destrutiva, o aumento da actuação transfronteiriça e do grau de violência dos grupos terroristas.
A internet tornou-se igualmente um instrumento poderoso do processo de globalização e causou um efeito revolucionário na maneira como o mundo comunicava, contraindo o espaço e o tempo e enfraquecendo o poder dos Estados em matérias de política externa e de segurança internacional. Efectivamente – como sustenta Maria Regina Mongiardim –, com a Internet e as novas tecnologias de comunicação, os governos perderam não apenas o monopólio do controlo da informação, como perderam também a capacidade de influenciar decisivamente os mercados globais, de conter as forças transnacionais ou de responder, de forma isolada, às novas ameaças (aquecimento global, delapidação dos recursos naturais, pandemias, crime organizado, terrorismo internacional, etc.)[3].
Deste modo, os terroristas descobriram que a internet podia proporcionar novas oportunidades e multiplicar os benefícios decorrentes das suas actividades. Ao contrário dos Estados, o mundo virtual não impunha fronteiras, o que o tornava muito mais atraente para as práticas terroristas. Munidos de computadores portáteis e escondidos em locais secretos e em anónimos cibercafés de subúrbios, os jovens jihadistas que sabem usar a internet tiveram o cuidado de replicar as instalações para o treino de comunicações, planeamento e doutrinação que perderam no Afeganistão e noutros campos de batalha, em novos e incontáveis websites e salas de conversação, nos quais era possível incitar ao recrutamento de novos terroristas, à constituição de novas células e à discussão estratégica e táctica de atentados.
De facto, um atentado que não passe na Internet, na prática, não existe, pois o que interessa é a sua exploração no ciberespaço. Cada um dos websites dispõe de vários links que permitem fazer o download de diferentes extractos da trágica cena, com maior ou menor duração. O acto é, em si mesmo, rodeado de um cenário, de gestos e de materiais com uma carga de simbolismo muito elevada, o que garante um efeito máximo no incitamento à jihad e na adesão à sua participação[4]. A principal ilação a tirar é que a al-Qaeda utiliza a tecnologia do século XXI para perseguir objectivos de uma prática marcial que remonta aos séculos medievais de expansão do Islão.
Outras referências:
A jihad electrónica – 1.ª Parte (ver aqui).
A jihad electrónica – 3.ª Parte (a publicar).
A jihad electrónica – 4.ª Parte (a publicar).
[1] Cf. RASHID, Ahmed, Jihad, a ascensão do islão militante na Ásia Central, Terramar, Lisboa, 2003, p. 15.
[2] Cf. COSTA, Helder Santos, O Martírio no Islão, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, Lisboa, 2003, pp. 47-48.
[3] MONGIARDIM, Maria Regina, Diplomacia, Almedina, Coimbra, 2007, p. 408.
[4] Cf. LOUREIRO DOS SANTOS, General, O Império Debaixo de Fogo, Ofensiva Contra a Ordem Internacional Unipolar, Reflexões sobre Estratégia V, Publicações Europa-América, Mem Martins, 2006, pp. 57-59.
Introdução
Anteontem quis começar a escrever uma entrada para o blog sobre o grupo terrorista Setembro Negro e tirei da estante o livro Munique, a Vingança, de George Jonas
Na sequência do assassínio, em 12 de Fevereiro, de Imad Mughniyah, o suposto n.º 2 do Hezbollâh, esta organização instruiu os seus operacionais nos cuidados a terem com o uso de telemóveis, de modo a evitarem ser localizados pela SIGINT